Dona
Maria tem mais de 60 anos, quase 70, não tem muito estudo, ou como ela mesma
diz: Eu não tenho cultura. Quase tudo
que falam ela acredita, principalmente se ela ver no seu programa favorito de
TV: Sensacionalismo ao meio dia. Ela tem tanta confiança no apresentador que
sempre liga para a emissora e sugere para ele sair candidato a vereador, até
faria campanha de graça, pois, acredita em sua idoneidade.
Mas o
mundo da Dona Maria não gira só na TV, acredite, ela tem uma vida fora da sala.
Maria vai sempre ao mercado, porém, o carrinho de compras dela é uma
"zona" tudo jogado de qualquer maneira sem nenhum cuidado.
Numa
dessas idas ao mercado, dona Maria protagonizou seus 15 minutos de fama, acabou
aparecendo lá até com a imprensa. Mas, agora que você já sabe que a Maria vai
parar na tela do Sensacionalista ao meio dia, vamos explicar o motivo. Tudo
começou por causa de um pedaço de contra filé e uma garrafa de alvejante que
ela não percebeu que estava furada, adivinhem: no carrinho jogou o alvejante
junto com a carne e senão bastasse na hora de ir embora ainda deixou na mesma
sacola os dois produtos.
Chegando
a casa na hora de desempacotar ela percebeu que estava vazando alvejante,
porém, colocou a carne numa vasilha, cheirou, cheirou, não gostou; antes de
qualquer coisa correu ao muro, chamou a vizinha: Joana, Joana, corre aqui,
quero te mostrar o que o mercado anda vendendo. Joana é do mesmo estilo da Dona
Maria, também assiste ao Sensacionalista ao meio dia. Na cozinha da Maria ficam
5 minutos vendo e cheirando a carne.
- Isso
esta com cheiro de desinfetante. Onde
você comprou isso?
-
Naquele mercado de sempre, aonde você também vai.
- Que
nojo do açougue de lá, mas você tem que denunciar Maria.
- Lá não
compro mais, mas, denunciar para quem, onde?
- Ah
Maria, lá no sensacionalista, você sabe que ele ajuda muito o povão.
- Joana
do céu, você tem razão. Agora o mercado vai ver.
Maria
liga, Maria fala com atendente, Maria vai até a emissora com a carne. Lá faz
com que todos cheirem aquilo.
O
apresentador viu a chance de fazer mais uma média com os telespectadores. Pediu
para um repórter e um cameraman irem com a dona Maria no mercado. Ao chegar ao
estabelecimento Maria como boa barraqueira, fez questão de a plenos pulmões
gritar: O mercado vende carne podre.
O
açougueiro não acreditando no que via, não teve reação:
- Vou
chamar o gerente.
Enquanto
isso o cinegrafista filmava tudo, inclusive um certificado que garantia a
qualidade do produto. O repórter irônico fez sua passagem.
- Ali naquela
parede tem um certificado garantido a qualidade das carnes, mas, não vamos
levar isso em conta, pois, não sabemos quem certifica e outra, tudo que escreve
o papel aceita. O que temos de concreto é que a cliente Dona Maria veio como
sempre deixar seu dinheiro, deixar o suor do seu trabalho, aquele dinheirinho
suado que só você aí de casa sabe como é. Ela não veio pedir favor, ela veio
comprar e pagou pela carne, só que o que ela levou não dá para chamar de
carne.
Nisso
vários curiosos ao redor prestavam atenção no que estava acontecendo e o
gerente chegou.
- O
senhor é o responsável aqui pelo local?
- Sim,
sou o gerente e sou desde que abriu o mercado aqui nesse bairro.
- Então
você deve saber que vocês vendem carne podre aqui, desde quando isso acontece?
- Olha,
nossa carne é certificada, o frigorifico que distribui a carne que vendemos
aqui tem a ISO, licença da vigilância sanitária e é um dos únicos que abatem o
animal com o menor sofrimento possível.
- Não é
isso que a Dona Maria aqui, aquela que paga o seu salário diz.
Nisso
ele pega a carne das mãos da Maria e faz cheirar:
-
Sentiu? Isso não é carne certificada, será que a vigilância sanitária sabe
disso?
- Vocês estão
filmando? Então por gentileza filmem nossa câmara fria, podem visitar, podem
filmar, garanto que o nosso produto não é podre, pois, nós diferente de outros
temos respeito pelos nossos clientes.
O Câmera
tem a autorização e filma, enquanto isso a conversa continua lá fora:
- Maria,
há quanto tempo a Senhora é cliente do mercado?
- Já faz
10 anos, mas a partir de hoje não compro nem caixa de fósforos aqui mais, e
digo para todos: não comprem aqui mais, pois seus filhos podem ficar doentes,
ainda bem que eu senti o cheiro a tempo, imagina se dou para meu neto, era
capaz dele morrer.
O
gerente pensativo: acaba pedindo a vasilha de onde esta a carne. Chama alguns
curiosos em volta.
- Antes
de qualquer coisa vamos esperar ele filmar aqui.
Quando o
cinegrafista se apronta ele começa.
- Por
favor, cheirem, digam que cheiro vocês sentem, e respondam se acreditam que a
senhora comprou aqui.
Nisso
Maria interrompe escandalosa.
- Claro
que comprei, tenho até a nota.
Ela levanta e chacoalha a nota, como se isso
fosse colocar medo no gerente.
-
Deixa-me analisar.
Nisso os
que estavam ali por perto davam seu depoimento: - Nunca tive problema, porém
agora fiquei preocupado.
-
Normal.
- Vou
passar a reparar.
O
gerente retoma a palavra.
- Por um
acaso a senhora teve outro problema no dia?
- Ah,
foi bom você falar nisso. Eu estava tão brava por ter ficado sem a minha carne
que acabei esquecendo. Além de vocês venderem carne estragada, vendem alvejante
avariado, acredita que a garrafinha que comprei estava com um furinho em baixo,
só reparei quando cheguei a minha casa. É pelo visto não tem nada de qualidade
aqui.
- Então
a senhora esta relatando dois problemas: carne com cheiro de alvejante e uma
garrafa de alvejante furada. O que você me diz disso - ele questiona o repórter.
- Que
vocês querem achar um jeito de não se responsabilizar com os produtos que
vendem aqui.
-
Perguntem então para nossos clientes aqui, quem sabe eles expliquem melhor para
vocês esse quebra cabeça.
Do lado
de fora do mercado o repórter em nova passagem:
-
Tentamos conversar com o gerente, mas como vocês mesmos puderam ver ele tentou
um jeito de colocar a culpa na cliente, assim como sempre, sempre o povo,
sempre o trabalhador que é culpado.
Encerra a
matéria, despede-se da Dona Maria. No caminho de volta o cinegrafista e o
repórter conversando.
- Onde
foi que amarramos nosso burro, a velha lá mistura carne com alvejante e acha
que o mercado vende carne estragada. Fala o repórter.
- É, mas
você sabe que essa gente vota, essa gente dá audiência e essa gente paga o seu
salário, aquele que você usa para jogar golfe com a sua distinta. Diz dando
risada o câmera.
Nisso o
Sensacionalista ganha audiência, o repórter e o câmara estão trabalhando, dona Maria
acreditando que eles trabalham para o "povo" e o gerente naquele dia
teve uma dor de cabeça, os clientes que ela estava (maioria) perceberam que o
mercado não tinha culpa nenhuma, e assim foi mais um dia.
muito bom.
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