Yago tem três anos, é um menino alegre e
muito esperto. Comilão que só vendo, gosta principalmente de fruta: mamão, uva,
pêssego, mas a melancia é a favorita. Gosta tanto que até se lambuza.
-
Como que é feita a melancia?
Os
adultos em volta ficaram pensativos com a pergunta. Embora a resposta seja
simples não gostavam dessa fase das crianças que tudo tem que perguntar porquê.
-
Eles devem fazer com água da chuva.
Ele
aceitou a resposta e continuou saboreando outro pedaço da fruta. Dizem que
criança esquece, mas não esquece. Uns dias passaram e nesse dia em específico
estava chovendo, problemas para uma criança? Não, ainda mais para quem esperava
ansioso por ela. Assim que percebeu correu para fora, levou uns potes e deixou
lá.
-
Pra que isso Yago? – questiona a mãe.
-
Quero fazer melancia.
-
Mas de onde você tirou isso?
-
Você disse que fazem melancia com água da chuva, quero fazer melancia.
-
Filho, mamãe estava brincando. Sabe aquelas sementinhas que vem dentro dela?
Então, você precisa plantar, daí nasce um pé de melancia. Mas você tem que
deixar a semente secar primeiro.
Dessa
forma, fica mais simples compreender o processo de nascimento da fruta
favorita. Agora ele só precisaria esperar o sábado chegar para irem ao mercado,
lá comprariam. Com a compra feita é só esperar o momento de partir a fruta. Na
hora de comer separou com cuidado cada carocinho, lavou, deixou no potinho e
guardou em baixo de sua cama. No outro dia colocaria no sol para secar, estava
feliz, queria plantar logo.
Essa
não seria a primeira experiência de Yago como “agricultor” Ele já
havia plantado milho, cavoucou diversos buracos, no meio da grama mesmo. E nessa
ocasião, se desenvolveu muito bem a planta, a família não vencia comer. Embora
à noite o milharal o assustasse. A cama ficava de frente para a janela, e a
cortina era branca, quando se apagavam as luzes, a lua refletia a sombra do
milharal na janela. A impressão que dava era que as plantas “caminhavam” ele
tinha medo.
Mas
o milho era “amigo” nunca nada de assustador aconteceu de fato, somente a
imaginação que consegue quebrar barreiras. No outro dia assim que o sol surgiu
ele não levou o potinho para fora, ainda estava dormindo. Mas, logo após
acordar levou o potinho com as sementes para o quintal: ficou observando. Logo
foi ver desenho, mas entre um intervalo e outro ia chegar para ver se a semente
tinha secado.
A
questão é que ficou alguns dias assim. Observava a semente, corria para dentro,
observava, voltava para dentro. Na cabecinha dele ele tinha a informação (
certa ou não) que a semente tinha que estar seca para plantar. Não entendia,
mas fazia o que ele achava que deveria ser feito. Só que essas sementes nunca
foram enterradas, sumiu. Caía na hora de recolher, passarinho comia, até
formiga levou; mas nada disso ele viu. Claro que o sumiço das sementes foi
observado quando nada havia, foi questionar a mãe e ela não tinha palavras para
explicar. É claro que ele poderia tirar outras sementes de outra melancia,
podia só que ela já estava fora de época. Teria que esperar um ano.
O
ano passou e os supermercados voltaram a ter a fruta, queria tentar novamente,
só que fizeram esquecer. No outro ano foram passar as férias na casa do tio,
não plantou melancia, mas colheu a que seu tio havia plantado. Ficou
maravilhado com o pé de melancia. Estava determinado, plantaria melancia em
casa. No outro ano plantou, não nasceu. Não compreendia, mas a sementes não
germinavam.
Por
um tempo ele se esqueceu do assunto, ainda gostava da fruta, porém não falava
em produzir. O tempo passou, observou que o quintal estava limpo e
sem nada plantado. Teve a ideia de ir ao mercado e comprar sementes,
queria produzir e vender na vizinhança umas hortaliças, comprou: alface, couve,
cenoura, melão e melancia. Nessa época ele já estava com uns dez anos, com o
dinheiro da venda compraria um vídeo game.
Plantou,
regou, nasceu. Sim, finalmente nasceu, tudo que ele plantou, vingou. Claro que
ele curtiu cada plantinha, mas a melancia era especial. E ele tinha jeito com a
terra, sempre regava de manhã e no anoitecer. Dessa vez tinha tudo para colher,
tinha. Numa tarde qualquer, choveu. Parece bom, né, afinal planta gosta de
chuva. Só que o granizo que caiu não foi legal, destruiu quase tudo. Sobraram
apenas uns pés de alface. Novamente ficou sem o fruto, e nem conseguiu vender o
que sobrou se decepcionou.
Muito
tempo passou por hora ele desistiu de plantar, queria saborear sua própria
melancia, mas não teve jeito. Num dia, numa roda de conversa com amigos o
pessoal falava das pérolas da infância. Ele contou a história que contaram para
ele de como era feita a melancia.
-
Quando era bem pequeno eu perguntei como era feito a melancia, me falaram que
se fazia com água da chuva.
- Ah, mas veja bem. A chuva faz crescer a planta, não
está totalmente errado. - Nunca havia pensado dessa forma. É
verdade.
Apesar da conversa não se animou em
plantar novamente, e olha que nessa altura ele já estava com 25 anos. Mas
mudaria de ideia, só questão de tempo. E esse dia chegou, visitou uma
floricultura que vendia mudas de hortaliças, plantas. E dentre elas
havia de melancia. Comprou logo uma dúzia, plantou. Os pezinhos foram morrendo,
somente um sobreviveu, aquele que ele plantou debaixo de um pé de jabuticaba.
Cada dia que passava a planta ficava maior, começou a dar flores, a fruta
começava a surgir e crescia cada vez mais rápido. Chegou a ter cinco melancias
crescendo, se animou. No entanto, quatro delas não conseguiram
se desenvolver, apenas uma cresceu.
No dia que finalmente ele conseguiu
colher, quase não acreditou, até fotografou o momento. Colocou na geladeira
para saborear no jantar, e conseguiu, finalmente depois de vinte e sete anos
conseguiu comer uma melancia que havia plantado. O menino do passado não
imaginaria o tempo que levaria, mas ficaria orgulhoso da conquista e do sabor
da fruta. É uma pena que naquela época não teve a ideia de plantar um
abacateiro também, pelo menos já estaria desfrutando a colheita.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência

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