segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sangue argentino





Leonardo é muito fanático por futebol, daqueles que não compra nada que contenha as cores do time rival.  É sócio torcedor, gasta pelo menos 30% do salário com o clube do coração. Sua conversa principal, adivinhe sobre o que é? Exatamente, futebol. Diferente de outros torcedores com as mesmas características, jamais foi para o braço com alguém, ficou apenas em xingamentos. Quando não está no estádio prestigiando sua “paixão”, está com os amigos jogando bola. Ele não é bom, mas também, não chega a ser nenhum bola murcha.

Assim, num desses encontros para bater uma bolinha, lá pelos 15 minutos do segundo tempo, Leonardo desmaia. Foi necessário ser levado de ambulância ao hospital. Com ele, vai somente o irmão. Os outros companheiros de pelada ficaram, não jogaram mais. Todavia, beberam e tiraram muito sarro dele, de acordo com as piadas, ele era uma mulherzinha que não aguentava nada. 

Então, no hospital ele é submetido a alguns exames, o resultado demora, mas chega. O médico chama o irmão para conversar:

 -Seu irmão vai precisar fazer um transplante de medula.
- Ele vai ter que entrar naquelas filas, e esperar alguém de boa vontade ser compatível?
- Esse passo adotamos se ninguém da família for compatível. Daí precisaremos procurar alguém que seja.  
- Bem, nossa mãe está com 72 anos, ela não pode mais, não tem idade, essa bronca tem que ser minha.
- Ótimo! Vá até o laboratório, vamos tirar uma amostra do seu sangue.  Daí saberemos se vocês são compatíveis.

Sai o Resultado: 

- Tudo certo, você é compatível.
- Só tem um problema. Eu me ofereci ceticamente, não achava que teríamos compatibilidade. Sendo assim, não vou doar, e ninguém pode me obrigar. Eu não dou nem mesada para meus filhos, vou dar medula para os outros?!
- Estou assustado com a sua declaração, mas de fato, não posso te obrigar, se sua consciência está limpa, não serei eu quem vai sujar. Seu irmão vai ter que ir para um banco de dados, quem sabe apareça um doador, mas quanto mais passar o tempo, pior.
- Ok, eu só te peço uma coisa doutor, não diga para meu irmão que somos compatíveis, não quero que ele pense que sou um cretino.

O tempo passou, Leonardo estava a ponto de perder a fé, estava esperando a morte. Só que o telefone tocou, e a esperança reacendeu. Foi correndo ao consultório conversar com o médico:

- Você tem mais sorte que juízo, apareceu um doador, ele é de Mendoza.
- Isso é perto do quê?
- Não sei, só sei que fica na Argentina.
- Argentina? Recuso-me, o senhor não vê futebol? Não sabe como eles são? Não quero, não quero e não quero.

O médico tira os óculos, coloca sobre a mesa, respira fundo:

- Eu não acredito no que ouvi, sério? Você não quer fazer um transplante porque você está com um conceito deturpado da mídia esportiva? Eu não acredito, pensei que já tivesse visto de tudo nesses meus 30 anos de carreira.
- É que essa questão Pelé, Maradona ...
- Acho que você precisa dum auxílio de um psicólogo. Cara desculpe minha franqueza, mas você é um idiota. Futebol como diversão tudo bem, mas quando ela cria esse clima de ódio, é preocupante. Eles não são nada disso que a mídia fala, tanto que um deles vai ser doador, poderia ter sido seu irmão, mas, se recusou.  E um cara que você nem conhece, vai doar, e você se recusa porque não tem capacidade de separar a ficção da realidade.   
- Meu irmão se recusou?
- Sim.
- Vindo dele não estranho. Mas quando entro na faca?
- É bom que saiba que não é uma operação, mas sim, uma transfusão. Vamos começar com todos os procedimentos necessários, fazer mais alguns exames, e tem a parte burocrática também. E logo você terá uma nova data de aniversário.  

Chega o dia da transfusão, apreensivo como qualquer procedimento médico. Enfim, tudo ocorreu bem. Agora é só aguardar duas ou três semanas para ver a reação do organismo e cuidar com a dieta.  Já que não tem muito o quê fazer na cama do hospital, aproveita o tempo ocioso para atualizar seu blog.

“Hoje eu entendo perfeitamente essa célebre frase; ‘As pessoas boas devem amar seus inimigos’. O fato é, que eu não imaginava alguém, o qual fui condicionado a odiar, pudesse salvar a minha vida. Preciso olhar para as coisas como elas realmente são. Futebol não é mais como foi um dia, hoje, só serve para cartola ganhar dinheiro e jogadores gastarem fortunas em farra, que nada agrega a ninguém. Enquanto torcedores estão se matando por bobagens, dirigentes estão rindo da cara de quem gasta o suado dinheiro vendo um monte de barbado jogar bola. Foi preciso uma tragédia para que eu pudesse ver que não existe ódio entre brasileiros e argentinos. A Argentina é tão linda quanto o Brasil, se os “brazuca” se gabam em ganhar cinco Copas, eles pelo menos têm Oscar e Prêmio Nobel. Eu imagino que, quando Deus olha lá do céu, ele não vê fronteiras, esse negócio de fronteiras é estupidez humana. Se tivesse uma voz maior, pediria desculpa aos nossos vizinhos pela falta de profissionalismo da mídia, principalmente a esportiva”.


Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência


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