domingo, 11 de outubro de 2015

Enterro de caminhoneiro

Andar pelas estradas do país a fora, rodar com destino, mas rodar. Na maioria das vezes a estrada é a única companhia, ou um ou outro posto de gasolina para desestressar, jogar conversa fora, abastecer: não só o caminhão, mas a pança, essa principalmente. E Pedrão come, mas, come que é uma beleza.

É, mas a parada tem que ser rápida, já é noite e até o amanhecer será necessário cruzar o estado, mas, para isso tem que sacrificar algumas horas de sono, por isso é necessário beber da água que passarinho não bebe (leia-se rebite). Bebe numa entornada só, efeito ligeiro, parece um jovem de 20 anos. Já são 22 horas, a estrada espera. 

Na boléia vai animado, tudo para fazer jus ao bolero que toca na rádio. Dá uma piscada, mais já recupera; outra piscada dá um tapinha na cara. Vem o bocejo. 
- Só mais 50 quilômetros daí eu paro, palavra de escoteiro. 
50 vira 5, que vira o caminhão, que vinha a 120 por hora. 
São 22: 31: Pedrão fecha os olhos para sempre. O resgate até chega rápido, mas, já era. Pedrão preferiu chegar adiantado na próxima vida do que atrasado nessa. 

Na vida deu mais ênfase ao trabalho, do que a qualquer outra coisa, pouco via a família, mas mesmo assim os filhos amavam o pai para a mulher foi o único homem que ela amou. Calcule a dor ao saber que ele havia morrido num acidente na estrada.  Palavras, não podem descrever a dor. Agora só tinha que se preparar para o enterro e começar a bateria de ligações avisando que Pedrão já não estava mais entre nós.

Muita gente apareceu no guardamento, mas muita gente mesmo, Pedrão era querido.  Pena que passou muito pouco tempo com a família tinha vez que ficava dois meses fora de casa, dois meses sem ver a família, era uma situação difícil. E nem sempre conseguiam se falar pelo telefone. Ele estava prometendo se aposentar em 3 anos, queria ficar mais com a esposa e os filhos.

- Situação difícil, não é mesmo Marlene?

- Estou até sem palavras  Xandra .   ( Xandra era irmã de Pedrão)
- Existem coisas que não entendemos coisas que fogem a nossa compreensão.

- Verdade, meu marido era tão cuidadoso, sempre contava dos perigos que os colegas passavam. Como pode um homem assim, morrer tão tragicamente.

- Isso mostra que ninguém sabe o que nos aguarda lá na frente, só sabemos que ninguém fura a fila da eternidade.

Marlene era casada com ele faziam 30 anos, tiveram três filhos: Amanda, Luciana, Peter. Todos os filhos têm menos de 20 anos, e todos faziam projetos para que o pai estivesse junto, apesar da ausência o pai compensava a falta quando estava presente.
O enterro estava agendado para as quatro horas, quando faltavam quinze minutos vieram avisar que atrasaria um pouco, pois, nem todos haviam chegado ainda. Marlene disse que não se importa, afinal poderia passar mais tempo com o companheiro dela.

- Tem muita gente aqui que não conheço mãe!
- Eu também não Peter, mas isso por que seu pai era caminhoneiro, conhecia gente do país inteiro, era muito querido.

Nisso entra uma mulher com uma garotinha de 8 anos, elas caminham até o caixão.

- Filha Beija o Papai.
- Que? Que história é essa de papai – questiona Marlene

- Ué, eu sou a mulher dele e ela é a nossa filha. Atrasamo-nos por que moramos longe, respeite a minha dor.
- A mulher dele sou eu, tenho três filhos com ele: Amanda, Luciana e Peter. Sou casada a 30 anos com ele, você é uma mentirosa.
- Se sou uma mentirosa a minha filha aqui é o que. Ah, você deve ser a ex-mulher dele, ele me disse que era separado, sou casada com ele há 10 anos. Não sabia que você ainda corria atrás dele.

O barraco toma conta da capela mortuária, os demais presentes tentam acalmar os ânimos, mas é em vão, sobra soco até para quem vai separar a briga.  

- Calma senhoras, não é dessa forma que se resolvem as coisas, vamos esfriar a cabeça. Vamos enterrar o Pedrão primeiro depois que tudo estiver calmo, sentamos e conversamos. O Marido de vocês não merece passar por isso em seu último momento.
-Olha Oswaldo, seu que você foi o melhor amigo desse aí, mas não me pede para ficar calma. Fui traída a vida inteira, debochou de mim e só descubro no velório dele. É por isso que passava meses sem voltar para casa. Até um fruto ele teve por fora.
- Nem eu nem minha filha temos culpa de nada. Ele me disse que era separado, tanto que nós casamos se tem alguém enganada na história sou eu.
- Calma, calma senhoras, as duas foram enganadas, mas vamos com calma, o Pedrão não está mais aqui para se defender.
- Defender? Do quê? Você não percebe o que esta acontecendo? Isso tem defesa? Não tem defesa. Aliás, bigamia é crime. Minha nossa eu era casada com um criminoso.
- Os coveiros estão prontos, vamos sepultá-lo primeiro daí conversamos com mais calma.  
- Não, eu me recuso a participar desse momento. Se eu ficar sou capaz de cuspir na tumba dele, é melhor só essa aí. Já que ela se diz esposa, eu era a amante então.
- Marlene, Marlene....
- Não adianta, meus filhos e eu vamos embora e quem é meu amigo vai também, esse sujeito não merece nenhuma homenagem.

Um a um vão embora, poucos vão até o caixão, todos estão envergonhados com a situação inusitada que presenciaram.  
- Filha, perdão. Eu não sabia nada disso, nunca imaginei que ele já fosse casado. Trouxe você para se despedir, mas, agora não tenho palavras para definir nada disso que aconteceu. Dê um beijinho no seu pai pela última vez, é seu direito e vamos embora. Não vamos participar também.

Os coveiros terão boas histórias agora, porém, eles precisam enterrar o cidadão. Ninguém vai presenciar o momento, todos foram embora, Pedrão tinha muitos amigos, fez duas famílias, achou que se mantivesse uma em cada estado nunca teria problemas. Ele só não esperava por esse momento, morreu de uma forma trágica, muitos que o admiravam em vida foram dar adeus, porém presenciaram a verdadeira fase.  Quem antes só tinha motivos para ser elogiado, agora, só ficou com a última história, ficou com a verdade vinda à tona. Viveu como quis viver, porém morreu como plantou: envergonhado. Mesmo tendo muitos conhecidos, os únicos que presenciaram a terra cair sobre o caixão foi os três coveiros, e isso porque foram obrigados. 


Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência. 

3 comentários:

  1. As obras da carne nos levam a vergonha mesmo, e o pior, a separação eterna de Deus.

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  2. As obras da carne nos levam a vergonha mesmo, e o pior, a separação eterna de Deus.

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