sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Duas quadras

Todo dia é a mesma coisa, acordar às 6h da matina. Dona Elizabeth, hoje com 55 anos, acorda de mau humor desde que seus pais obrigaram na a estudar de manhã. E isso se vão 50 anos. Depois da escola veio a faculdade, o trabalho e todos os afazeres da vida. Ela não dá nem bom dia para o marido, e ele também não se atreve. Dá última vez que se atreveu, uma moldura do criado mudo foi parar em seu rosto. Se dependesse dela, a vida começaria depois do meio dia. Dona Elizabeth gosta tanto de dormir, que um dia fez uma proeza. Foi dormir numa sexta-feira e acordou domingo às quatro horas da tarde. E só se deu conta quando ligou a TV, pois queria ver o Raul Gil, mas era o programa Silvio Santos que estava passando. Mesmo assim, achou graça do recorde que tinha quebrado.

Então, agora vocês sabem mais ou menos como é a Dona Elizabeth, portanto, não dê bom dia para ela, ou... sofra as consequências.

O dia começa e o despertador toca, mas teve um porém, como a pilha do despertador estava ficando fraca, isso fez com que o relógio trabalhasse mais devagar. Ou seja, não eram 6 horas, eram 06:45 min. Imagine os adjetivos "carinhosos" que saíram da boca de Dona Elizabeth, e como o tempo perdido não volta mais, ela como de costume, logo tratou de fazer a higiene e se arrumou para ir ao trabalho. Não tomou café, iria tomar no serviço.
O ponto de ônibus ficava a 20 metros do portão da casa dela. A lei de Murphy sempre funciona, ainda mais para alguém com a personalidade dela. Neste dia o ônibus tinha quebrado, sendo assim, tinha que ficar esperando outro coletivo aparecer. Passaram 5 minutos, passaram 10, passaram 20, a pressão arterial, lógico, foi lá para cima. Coitada das pessoas que estavam no ponto com ela:

- Que falta de respeito com a gente, quase uma hora esperando e não aparece nada!
- Uma hora não digo, mas uns quinze, sim.
- Que quinze que nada, fazem isso de propósito. Aposto que o motorista e o cobrador estão lá no ponto final tomando café, e o povo aqui que se lasque.
- Não creio que seja isso, mas também se estiverem, é o direito deles, comer.
- Que comam depois que a gente for embora!
- Pode ser que aconteceu algum acidente no caminho.
- É, percebeu que eles sempre têm uma desculpa, e quem se prejudica somos nós que temos horário?
- Eu sou da opinião que certas coisas acontecem para evitar que algo pior aconteça lá na frente. Prefiro chegar atrasado nessa vida a adiantado na próxima.

Pronto, foi o suficiente para que o homem escutasse até o que não devia. Foram cinco minutos até o ônibus vir. Subiu os três degraus do ônibus já gritando:

- Poxa vida! Olha aqui, 30 minutos esperando os bonitões, por acaso está escrito palhaça na minha cara? - questiona ao motorista.
- O ônibus da linha quebrou, foi necessário chamar o reserva, e para isso, tem uma burocracia, se tem uma reclamação, que faça direto à empresa.
- Mas é isso que vou fazer assim que chegar ao serviço.
Daí parou na frente do cobrador, abriu a bolsa tirou uma nota de R$ 20. A passagem custa R$2,20.
- A senhora não tem trocado? Acabei de trocar uma já e é começo do dia, estou sem troco.

A “gralhação” foi com o cobrador, agora.

Ele para evitar que o dia começasse mal, disse: - Olha, passe aí, não precisa pagar, não fará falta para mim, depois coloco no meu relatório, tiro do meu bolso e pago sua passagem. Tenha um bom dia. A mulher passa a catraca e já puxa a corda para descer. O ônibus andou exatamente duas quadras. Assim, que ela desceu, o homem que estava no ponto com ela começou a conversar com o cobrador.

- Essa mulher estava meia hora lá no ponto, estava só reclamando, entrou no ônibus ofendendo vocês que estão trabalhando. E para quê? Andar duas quadras, duas quadras. Se ela fosse a pé, em cinco minutos estaria no serviço e evitaria todo esse desgaste. Será que ela tem medo de cair as penas fora?
- Isso é comum, tem um bocado de gente que pega o ônibus num ponto e desce no outro.
- Nossa, como esse povo é preguiçoso! Como seria bem melhor a vida se o pessoal fosse diferente. Acho que é por isso que ela está gorda, tem preguiça de caminhar duas quadras. Perdeu meia hora no ponto, se fosse caminhando já estaria trabalhando há um bom tempo.

- Verdade, mas não ligamos, pelo menos temos história para contar, e aquela mulher é digna de pena, duas quadras de atmosfera pesada não apaga o dia lindo que Deus fez para nós. Afinal ainda podemos respirar enquanto nosso coração bate.

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.

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