Todo
garoto tem um sonho e cada garoto tem um objetivo na vida. Alguns são mais
dedicados aos estudos, e sonham em ser médico, advogado ou coisa equivalente.
Outros, não são assim tão chegados em livros, e planejam a vida em gramados ou em
casa de espetáculo, levando a música a todos os cantos. Altamiro Barnabé, vulgo
Miro, não tem dom para estudar e muito menos para jogar bola. Ainda bem, pois
ele nunca gostou, o que ele gosta é de cantar. Mora a 300 quilômetros da
capital, mas não do sonho.
— No
dia em que saí de casa, minha mãe me disse: Miro vem cá. (canto todo
desafinado).
—
Miroooooooooooo!!
— Que
foi, mãe!
—
Outra vez debaixo dessa árvore, passa o dia todo debaixo dela cantando e
cantando, seu pai teria muito desgosto de você.
— Mãe,
a senhora está equivocada, eu garanto que o meu pai teria muito orgulho de mim,
muito, pois eu sou a cópia mais que exata dele, e falando em desgosto, como foi
que ele morreu mesmo?
Maria,
mãe do Miro, dá um tapa na cara dele: — Moleque mal-educado, nunca
esqueça que eu sou sua mãe e se você pensa que tem o direito
de falar desta forma comigo, não se considere mais meu filho.
— Mas
mãe, veja bem, este é o meu sonho, você sabe que eu tenho um canário dentro de
mim, a música está em minhas veias.
— Música
não enche barriga de ninguém.
— Mãe,
leia os meus lábios, você ainda terá muito orgulho de mim, minha música ainda
será tema de abertura daquelas novelas enjoadas que você vê.
— Miro!
Miro! O máximo que você animaria, seria
um nascimento de bezerro.
— Mãe,
lembre-se dessas palavras que você disse, só lembre. Agora vou lá no Zé.
Zé
era mais do que primo de Altamiro, era o parceiro da música.
— Cara,
que coincidência, há uns cinco minutos, eu estava pensando em você.
— Não
diga uma coisa dessas, homem.
— Mas
por quê?
— Cara,
você tem que pensar em nossa música: “Eu caminhei sozinho pela rua, falei com
as estrelas e com a lua”. E não em mim.
— A
moto está pronta. Pode partir quando você quiser.
— Maravilha!
Ah? Você não vai, qual é a “marézinha”, dessa vez?
— Eu
não sou irresponsável como você. Tenho mãe, e vou ter de cuidar da sua também,
pode ir, vá. Mande notícias, não deixe sua mãe preocupada.
— Só
diga a ela que ela terá notícias minhas por meio das revistas de fofoca que ela
lê.
Sem
nem dizer adeus, pega a moto, e vai para a capital. Vai sonhando, vai sorrindo
com o futuro que projeta em sua mente. Com ele vai apenas o violão e R$ 500,00.
Dinheiro suficiente para pagar um mês de pensão. Na cabeça dele, já era um cara
famoso, um artista que iria reunir multidões.
Porém, como um mês passa na vida de todo mundo, para ele não foi
diferente. A grana acabou. Se não fizesse nada, teria de ir embora ou dormir na
rua. Numa última tacada, resolve ir até uma agência, era sua última esperança.
— Mocinha,
tenho uma entrevista com o “sangue bom” desse lugar.
— Você,
quem é?
— Altamiro
Barnabé, o rei do interior.
— Aguarde
um momento. - Miro aguarda, só não
imaginava que teria que esperar por 1 hora. Mas, enfim ele entra.
— Você
é de onde, e está fazendo o quê aqui?
— Sou
do interior, vim realizar o meu sonho, que aliás, já está se concretizando.
— Vamos
ver. Por que você quer ser cantor?
—
Bem, eu gosto de música e também porque quero proporcionar uma vida digna para
mim mesmo; carros, viagens, mulheres....
— Você
só tagarelou, não ouvi sua música, toque alguma coisa para eu ouvir.
— Sem
crise (começa a tocar o violão). “Alô, Amor! estou te ligando de um orelhão,
está um barulho, uma confusão, mas eu quero tanto te falar; depois das 6 estou
te esperando no mesmo lugar “.
— Sertanejo?
— Sertanejo.
Música boa.
—
Putz cara, Sertanejo?! É, vindo do interior de Goiás, não poderia esperar outra
coisa. Até parece que não existe outro
tipo de música.
— Bem
cara...
— Cara
não, Davi para você.
— Tá
bom, Davi para mim. Eu poderia tocar quem sabe um pagode, mas pagode é música
de desempregado. Eu poderia ainda quem sabe tocar um forró, um sambinha, mas
não. Se você não gosta, tem mil produtores lá fora que gostam.
— O
que está esperando, então?
— Também
não vamos perder a razão.
— Saia
da sala, será melhor para você.
— Tudo
bem. O senhor ainda vai se arrepender, vai ouvir falar muito
de mim.
—
Bem, eu não me interesso pela parte policial dos jornais.
Miro
sai da sala abatido. A mocinha da recepção percebe.
—
Não teve sorte, não é mesmo?
— Mais
ou menos. Ele até disse que nunca tinha visto um talento incrível como o
meu....
— Espera!
Não diga mais nada, é melhor você desistir, aqui nessa cidade suas chances já
eram. Agora ele vai falar de você para todos os produtores, ele já vai fazer sua
cama, é melhor ir para sua cidade.
— Se
ele fizer minha cama, minha mãe vai adorar, já que é sempre ela quem faz. O
problema é, com que cara que vou chegar em casa?
— Tudo
se resolve. Adeus!
Altamiro
pega o caminho de volta, diferente da ida, não vai mais sonhando. O sorriso deu
lugar às lagrimas. E quando chega em casa, tenta disfarçar.
—
Mãe!!!
— Filho!
Maria
saiu correndo, agarra e o beija com toda a alegria.
—
Mãe do céu! eu quase consegui gravar meu disco, só não gravei porque acabou a
luz no dia. Dentro de um ano a luz volta e eu estarei lá no estúdio gravando e
fazendo o que gosto.
— Tudo
isso, para voltar a luz?
— Para
a senhora ver, mãe.
Nesse
meio tempo, o Zé percebe que o primo voltou e vai até lá para conversar com
ele.
— Tarde!!
—Tarde.
— E
aí primo, já voltou? Quebrou a cara na tal da capital?
— Não.
Digamos apenas que ainda não chegou a minha hora. Mas ela vai chegar. Ah, se vai!
E quando ela chegar, será o máximo. Goiânia serviu de experiência para mim. Em
breve farei voos maiores, por hora, vou-me “atipar” por aqui mesmo.
— Filho,
você ainda não caiu na real, daqui você não sairá mais.
—
Foi legal, mãe. Zé, você precisa ir também.
— Mas
não vou mesmo, sou mais do que feliz aqui. Amo esse lugar, amo mesmo. Sua mãe é
minha testemunha.
— É
filho, ele está feliz. Aqui é nossa terra, aqui mora a nossa gente, nossas
raízes. Até acredito quando você fala que a capital é o máximo. Mas lá, não tem
o que temos aqui.
— Eu
sei onde vocês querem chegar. E lá no fundo do coração, também penso desta
forma. Aqui a gente é feliz e não sabe.
— Não
Miro, só você que não sabe.
— Mas
chega de falar só de mim. Vou pegar a minha viola
para fazermos um festerê. - “Do que me adianta viver na cidade se a felicidade
não me acompanhar. Adeus paulistinha do meu bem querer lá pro meu sertão eu
quero voltar”.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.
Amei muito lindoo querido amigo�� parabens
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