quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Embalado por um sonho


Todo garoto tem um sonho e cada garoto tem um objetivo na vida. Alguns são mais dedicados aos estudos, e sonham em ser médico, advogado ou coisa equivalente. Outros, não são assim tão chegados em livros, e planejam a vida em gramados ou em casa de espetáculo, levando a música a todos os cantos. Altamiro Barnabé, vulgo Miro, não tem dom para estudar e muito menos para jogar bola. Ainda bem, pois ele nunca gostou, o que ele gosta é de cantar. Mora a 300 quilômetros da capital, mas não do sonho.

No dia em que saí de casa, minha mãe me disse: Miro vem cá. (canto todo desafinado).
Miroooooooooooo!!
Que foi, mãe!
Outra vez debaixo dessa árvore, passa o dia todo debaixo dela cantando e cantando, seu pai teria muito desgosto de você.
Mãe, a senhora está equivocada, eu garanto que o meu pai teria muito orgulho de mim, muito, pois eu sou a cópia mais que exata dele, e falando em desgosto, como foi que ele morreu mesmo?

Maria, mãe do Miro, dá um tapa na cara dele:   Moleque mal-educado, nunca esqueça que eu sou sua mãe e se você pensa que tem o direito de falar desta forma comigo, não se considere mais meu filho. 
Mas mãe, veja bem, este é o meu sonho, você sabe que eu tenho um canário dentro de mim, a música está em minhas veias.  
Música não enche barriga de ninguém.
Mãe, leia os meus lábios, você ainda terá muito orgulho de mim, minha música ainda será tema de abertura daquelas novelas enjoadas que você vê.
Miro! Miro!  O máximo que você animaria, seria um nascimento de bezerro.
Mãe, lembre-se dessas palavras que você disse, só lembre. Agora vou lá no Zé.

Zé era mais do que primo de Altamiro, era o parceiro da música.
Cara, que coincidência, há uns cinco minutos, eu estava pensando em você.
Não diga uma coisa dessas, homem.
Mas por quê?
Cara, você tem que pensar em nossa música: “Eu caminhei sozinho pela rua, falei com as estrelas e com a lua”. E não em mim.
A moto está pronta. Pode partir quando você quiser.
Maravilha! Ah? Você não vai, qual é a “marézinha”, dessa vez?
Eu não sou irresponsável como você. Tenho mãe, e vou ter de cuidar da sua também, pode ir, vá. Mande notícias, não deixe sua mãe preocupada.
Só diga a ela que ela terá notícias minhas por meio das revistas de fofoca que ela lê.

Sem nem dizer adeus, pega a moto, e vai para a capital. Vai sonhando, vai sorrindo com o futuro que projeta em sua mente. Com ele vai apenas o violão e R$ 500,00. Dinheiro suficiente para pagar um mês de pensão. Na cabeça dele, já era um cara famoso, um artista que iria reunir multidões.  Porém, como um mês passa na vida de todo mundo, para ele não foi diferente. A grana acabou. Se não fizesse nada, teria de ir embora ou dormir na rua. Numa última tacada, resolve ir até uma agência, era sua última esperança.

Mocinha, tenho uma entrevista com o “sangue bom” desse lugar.
Você, quem é?
Altamiro Barnabé, o rei do interior.
Aguarde um momento. -  Miro aguarda, só não imaginava que teria que esperar por 1 hora. Mas, enfim ele entra.
 Você é de onde, e está fazendo o quê aqui?
Sou do interior, vim realizar o meu sonho, que aliás, já está se concretizando.
— Vamos ver. Por que você quer ser cantor?
Bem, eu gosto de música e também porque quero proporcionar uma vida digna para mim mesmo; carros, viagens, mulheres....
Você só tagarelou, não ouvi sua música, toque alguma coisa para eu ouvir.
Sem crise (começa a tocar o violão). “Alô, Amor! estou te ligando de um orelhão, está um barulho, uma confusão, mas eu quero tanto te falar; depois das 6 estou te esperando no mesmo lugar “.
Sertanejo?
Sertanejo. Música boa.
Putz cara, Sertanejo?! É, vindo do interior de Goiás, não poderia esperar outra coisa.  Até parece que não existe outro tipo de música.
Bem cara...
Cara não, Davi para você.
Tá bom, Davi para mim. Eu poderia tocar quem sabe um pagode, mas pagode é música de desempregado. Eu poderia ainda quem sabe tocar um forró, um sambinha, mas não. Se você não gosta, tem mil produtores lá fora que gostam.
O que está esperando, então?
Também não vamos perder a razão.
Saia da sala, será melhor para você.
Tudo bem. O senhor ainda vai se arrepender, vai ouvir falar muito de mim.
Bem, eu não me interesso pela parte policial dos jornais.
Miro sai da sala abatido. A mocinha da recepção percebe.
Não teve sorte, não é mesmo?
Mais ou menos. Ele até disse que nunca tinha visto um talento incrível como o meu....
Espera! Não diga mais nada, é melhor você desistir, aqui nessa cidade suas chances já eram. Agora ele vai falar de você para todos os produtores, ele já vai fazer sua cama, é melhor ir para sua cidade.
Se ele fizer minha cama, minha mãe vai adorar, já que é sempre ela quem faz. O problema é, com que cara que vou chegar em casa?
Tudo se resolve. Adeus!  

Altamiro pega o caminho de volta, diferente da ida, não vai mais sonhando. O sorriso deu lugar às lagrimas. E quando chega em casa, tenta disfarçar.
Mãe!!!
Filho! 
Maria saiu correndo, agarra e o beija com toda a alegria.
Mãe do céu! eu quase consegui gravar meu disco, só não gravei porque acabou a luz no dia. Dentro de um ano a luz volta e eu estarei lá no estúdio gravando e fazendo o que gosto.
Tudo isso, para voltar a luz?
 Para a senhora ver, mãe.
Nesse meio tempo, o Zé percebe que o primo voltou e vai até lá para conversar com ele.
Tarde!!
 Tarde.
 E aí primo, já voltou? Quebrou a cara na tal da capital?
Não. Digamos apenas que ainda não chegou a minha hora. Mas ela vai chegar. Ah, se vai! E quando ela chegar, será o máximo. Goiânia serviu de experiência para mim. Em breve farei voos maiores, por hora, vou-me “atipar” por aqui mesmo.
Filho, você ainda não caiu na real, daqui você não sairá mais.
Foi legal, mãe. Zé, você precisa ir também.
Mas não vou mesmo, sou mais do que feliz aqui. Amo esse lugar, amo mesmo. Sua mãe é minha testemunha.
É filho, ele está feliz. Aqui é nossa terra, aqui mora a nossa gente, nossas raízes. Até acredito quando você fala que a capital é o máximo. Mas lá, não tem o que temos aqui.
Eu sei onde vocês querem chegar. E lá no fundo do coração, também penso desta forma. Aqui a gente é feliz e não sabe.
Não Miro, só você que não sabe.
Mas chega de falar só de mim. Vou pegar a minha viola para fazermos um festerê. - “Do que me adianta viver na cidade se a felicidade não me acompanhar. Adeus paulistinha do meu bem querer lá pro meu sertão eu quero voltar”. 

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência.

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