terça-feira, 8 de setembro de 2015

Melissa Offline

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 6h30m despertador tocando, tocando:
- Bom dia Melissa!
Silêncio!
 Puxa, mas que sono pesado, o despertador acordou o prédio inteiro e nada da Melissa levantar. O pai teve que ir até o quarto da filha e desligar e chama-la. A garota parece que tem sono de pedra, pode cair o mundo que não levanta. Tentou até chacoalhar: nada, não ouve, tem sono muito pesado mesmo.
- Você vai se atrasar para escola, depois acorda sai correndo sem tomar café.
Bate a porta...
2 minutos depois.
O assovio do whatsapp tira o silêncio do quarto.
Melissa pula com tudo, dá um grito:
- Por que ninguém me acordou? Agora só vou chegar para segunda aula, nem o despertador tocou.
- Não só tocou como acordou todo mundo, menos a bonitinha aí.
- Senão são meus amigos, ainda estava dormindo, ainda bem que me passaram mensagem.
- Como pode não ouvir o despertador, mas ouvir o whats?
- É que você é quadrado, nasceu no século passado, aliás, milênio passado, tem que se modernizar cara.
Melissa confere as mensagens do grupo da sala de aula.
Ao todo são 30 ( eis aqui as mensagens)
Bom dia!
Bom dia
Bom dia
Bom dia
Bom dia
Bom dia
Bom dia
Bom dia
...
Nos outros grupos a mesma mensagem. E isso anda se repetindo quase que diariamente. Tem a coragem inclusive de dar bom dia para quem não olha na cara no resto do dia.

Melissa nem acabou de se vestir, mas já esta com os fones de ouvido, a música é tão alta que até quem esta sem fone ouve. A garota estuda de manhã, tem o resto do dia livre; não faz nada além de estudar. Porém passa o dia todo bocejando, ela não sabe o porquê. Mas, a explicação é muito simples: fica até às 2 horas da manhã nas redes sociais. Quem leva a menina para escola é mãe, afinal fica no caminho da academia. Durante o percurso Melissa está vidrada no celular, nem pisca, esta se atualizando pelo Facebook. Lá descobre que a melhor amiga foi a festa da prima, e nem a chamou, embora Melissa não a conheça. Porém, isso não impediu de deixar uma mensagem irônica na foto: Melhores amigas, só que não.Descobre que o professor de história havia passado um trabalho a um mês para entregar naquele dia, e ela e mais 15 colegas esqueceram, porém ao invés de pedir clemencia ao mestre, usaram o tempo para ofender os nerds. Ainda curtiu fotos das consideradas “Patis” da escola. Quando chegou nem se despediu da mãe, bateu a porta do carro e os olhos continuavam no aparelho.5 minutos depois que chegou ao colégio, lembrou que não disse tchau para mãe, mas, não teve dúvida, antes de entrar na sala e de fechar o facebook escreveu em sua linha do tempo: Minha mãe é a melhor, amo você, boa academia mamis.

1° aula: Filosofia
Professor: Nesse bimestre não penso em passar prova, penso eu avaliar vocês de outra forma, com um trabalhinho, bem simples, vocês nem terão tanto sacrifício para conseguir obter êxito. Topam?
- O que temos que fazer - Questiona um aluno
- Ficar um mês sem utilizar redes sociais, se conseguirem 10, caso contrário zero.
- Como você saberá quem ficou ou não.
- Eu saberei.
- Saberá nada, não existe geração mais esperta que a Z.
- Geração esperta? A geração Z se for a uma biblioteca fazer uma pesquisa, não tem ideia de como procurar o que quer a tal geração esperta se não se locomover via GPS se perde na própria quadra. A tal da geração se os pais morrerem a única coisa que saberão cozinhar é miojo e brigadeiro. A geração revolucionária não sabe o prazer que é ficar no quintal e se sujar de terra brincando e sendo feliz, a geração que pode tudo não sabe como é divertido os jogos de família, não tem a noção que é lindo conversar com os amigos pela boca e não pelo celular. Não se preocupe, a minha geração, não importa que letra que seja não nasceu para levar chapéu da última letra. Pois, ela não passa de última. O que viria depois de Z? Nada! Eu saberei quem ficou e quem não ficou.

NO RECREIO
-       É então o filósofo metido a professor, acha que nossa geração é inferior à dele, ele acha que não temos capacidade de ficar sem a modernidade. Vamos provar que ele está errado. Vai ser legal no final do mês ver a cara dele de perdedor, vamos entrar para a história do colégio. Mas, antes vamos tirar uma self e postar no Instagram.  Já tenho até legenda: Por motivo de intimidação da geração A ( nem sei se existe hssss) estamos 1 mês sem internet, mas ao final sairemos vitoriosos.

Próxima aula Geografia
-       O trabalhinho desse bimestre é bem simples. Quero que vocês façam uma análise do cenário em que se encontra a Síria nesse momento. Podem fazer uma contextualização histórica. E outra coisa: já sei qual foi o trabalho do professor de filosofia, sendo assim, para não atrapalhar a ideia dele, vocês podem fazer em papel almaço mesmo, caneta preta ou azul. Na biblioteca e nos jornais tem muita informação para vocês.

-       Melissa, o que é papel almaço? – questiona uma colega
-       Ah que pergunta boba Bruna, papel almaço é uma A4 amaçada.
-       Após a aula vamos fazer esse trabalho e matar logo.
-       Vamos sim

Após bater o sinal para ir embora
-       Como vamos saber como chegar à biblioteca sem poder usar nosso aplicativo? Eu tenho vergonha de perguntar para os outros.
-       Não esquenta Bruna, eu peço para minha mãe levar a gente, sussi, não vamos dar o braço a torcer.

Só que a mãe de Melissa não poderia levar as meninas para a biblioteca, ela precisava trabalhar, não tinha como estar em dois lugares ao mesmo tempo. Até sugeriu que a filha passasse uma mensagem para o pai.  Mas, ela não podia, precisava tirar 10 para não reprovar em filosofia. O que fazer?

-       Não sei como a humanidade sobreviveu todos esses anos sem tecnologia. Não dá para fazer nada, que saco. Não dá para se localizar, tudo é muito confuso, a gente olha no mapa e parece que um bebe riscou tudo, minha nossa será que esse povo nunca ouviu falar de google earth. E a professora de geografia quer o trabalho à mão, ela que se prepare para achar muitos garranchos, minha letra está mais para árabe do que para português. E para piorar não podemos entrar no site e comprar ingressos para nossa banda favorita, a vendagem é só pelos meios virtuais, nossa vida social acabou. Olha aqui o número de mensagens que não posso ler do Whats, já passou de 1000. Assim em um mês passará de 1 milhão, acredito eu, não posso usar calculadora para estimar a quantidade.

-       É o fim, mas prefiro reprovar a ficar sem internet, como vamos saber o que aquelas metidas da quadra de cima estão fazendo? Como vamos manipular fotos para mostrar que somos melhores que elas? Como ficar sem tirar foto na frente do espelho fazendo biquinho, afinal isso é a marca registrada das garotas poderosas. Como ficar sem mandar mensagem para atiçar os gatinhos? Um mês sem inventar mentiras nas postagens do face e do nosso blog. Nossas inimigas vão achar que jogamos a toalha.  

- Quer saber? O trabalho de geografia foi terceirizar. Vou deixar aquele nerd do João fazer, como o trabalho é a mão a professora não pode nos acusar de dar um Ctrl C, Ctrl V.

Parecia um bom plano, tudo indicava que estavam conseguindo viver sem as parafernálias tecnológicas. Pois é, só que João tinha princípios, João não topou fazer. As meninas desistiram do trabalho de geografia, pelo menos por enquanto. O dia passava e elas ficavam mais ansiosas, nervosas precisaram até tomar um remédio para dor de cabeça. O único aparelho que estava liberado era a televisão, porém as séries ainda que inéditas nas tardes, não era mais novidade para elas. Afinal já tinham acompanhado todas as temporadas no Youtube.

Como não havia nada de bom para fazer Melissa foi dormir cedo aquele dia, 20 h já estava indo para a cama. Naquela noite ela sonhou, sonhou que se perdia no mundo virtual. Sonhou que era celebridade no Youtube, querida no Facebook, que tinha uma legião de seguidores do Twitter e o Instagram bombando como nunca. E isso se repetiu durante uma semana, E cada dia que passava Melissa ficava mais e mais quieta, nem parecia àquela garota travessa e cheia de vida.

- Algum problema meu anjo, já faz alguns dias que você esta com essa carinha, o que aconteceu?
- Não deveria falar, mas meu professor de filosofia me violentou.
- O quê - dá um grito o pai.
- Sim, mas não só a mim, a todos os meus colegas. O trabalho que ele passou é para ficarmos um mês sem a internet, eu não aguento mais. Para quem tem até o nascimento compartilhado no Youtube, ficar algumas horas sem ver a luz do monitor é o pior tipo de violência que possa existir.
- Isso, foi só isso? Isso é violência?
- E das bravas pai. Pai, eu não aguento mais, posso até reprovar, o senhor pode até cancelar meu I Phone 6 de presente de natal, mas, esta muito difícil ficar sem saber o que os outros estão fazendo, preciso da internet mais do que você imagina. Hoje teremos aula de filosofia, nossa turma vai conversar com o professor e dar um fim nisso.

NA AULA
- Professor, o senhor esta sendo um tirano.
- É mesmo Raul, é por quê?
- Eu era o melhor da minha família no Criminal Case, agora, só essa semana perdi umas 8 batatas.
- E você acha que sou um tirano por que você perdeu batatas. Alguém mais acha isso?
- Meu namorado mora na Itália, agora não sei o que ele está pensando.
- Você o conhece pessoalmente Tânia?
- Não!
- O meu caso é mais grave, eu estudo para o vestibular pela internet, não tenho rede social, não curto isso, sinto que estou sendo prejudicado.
- Algo mais classe? Nada né, perceberam como anda a vida de vocês? Com exceção do Mateus, todos os outros utilizam a rede para bobagens. O que acrescenta na vida de vocês saber como esta vivendo alguém que vocês não gostam? Como vão aprender a ser gente se não sabem fazer nada fora do virtual? Vocês reclamando que nem o aniversário dos pais consegue lembrar se o face não avisar. Vocês acham isso normal? Veja o exemplo do colega de vocês, ele utiliza a rede para conhecimento. está estudando, há oportunidades. Depois é fácil falar que os pais não tem dinheiro para estudar, que o governo deveria bancar. A internet é uma ferramenta quase infinita de informação, utilizem para coisas que prestem. Tudo bem ter uma rede social, mas, saibam usar.  Olhem uns para os outros, vejam como estão fazendo papel de bobos.
- Professor, o senhor pode ter razão, mas, desde que nascemos temos todo esse conforto, nunca ninguém nos ensinou o contrário, nossos pais até davam isso para não precisar cuidar, sabiam que assim estaríamos em segurança.
- Crianças, infelizmente isso é uma verdade. Mas, me dói, dói em imaginar como será a vida daqui para frente, o homem cada vez mais isolado, sempre afastando quem esta próxima e trazendo para perto quem está longe. Não se preocupem com a nota, todos terão notas satisfatórias. Eu só quero que vocês tirem um aprendizado disso, existe vida aqui fora, aqui as pessoas são melhores, há vida, há sentimento, não passem a existência real de vocês Off-line.  







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