domingo, 27 de setembro de 2015

Medalha de Guerra


- Vóóóóóóóóó
É dona Jurema chegaram às férias e com os pais trabalhando as crianças ficam sem lugar para ficar, resta apenas a casa da avó. É melhor preparar a jarra de suco e os bolinhos de chuva, a tarde promete, afinal são três netos. Marina 5 anos ,Lucas 3 anos e Alberto 7 anos.  
- Vó, conta uma história para gente. 
- É conta!
- Conta, conta, conta - Em couro.
-Vamos sentar lá na sala.  
Jurema já tem 80 anos, mas ainda é forte, lúcida e tem uma memória incrível. 
Enquanto se ajeita na poltrona ela aponta para uma medalha na parede. 
- Vocês sabem a história dessa medalha crianças?
- Não.
 -Era do meu pai, ele foi um herói de guerra, ele lutou na 2° grande guerra, isso a muito, muito, muito tempo, a vovó era um pouco maior do que o Alberto, mas, me lembro como se fosse hoje. Era uma manhã fria e nublada, meu pai recebeu um telegrama convocando para uma batalha. Ele falou que era o dever dele defender a pátria, nunca entendemos o porquê. Mas ele foi se despediu de mim da minha mãe e de meus irmãos. Era o dia mais triste de nossas vidas até aquele momento. 
- Mas, por que vovó. 
- Na época nem eu nem meus irmãos imaginávamos o que era uma guerra, na escola os professores falavam que o conflito era para acabar com o mal no mundo, e que não éramos para nos preocupar que tudo estaria sendo resolvido, ninguém ali iria sofrer. Mas, não foi bem assim, alias foi muito diferente, muitas vidas foram ceifadas, famílias destruídas e sonhos arruinados. 
- A senhora esta falando, falando, mas ainda não sabemos o significado dessa medalha. 
- Bem, vamos direto ao assunto, então: Quando terminou a segunda guerra e os soldados puderam voltar, ficamos tão felizes que fomos até o porto esperar meu pai. Já fazia dois anos que não o víamos, estamos tão felizes até o cachorro dele levamos junto, matamos o porco mais gordo tudo para comemorar a volta do meu papai. Quando o navio atracou e começou a descer soldado por soldado, nosso coração, o meu principalmente, disparou. Mas, meu pai não descia, minha mãe começou ficar preocupada. Até que um homem veio e chamou ela e outras mulheres. Não escutei o que ele havia dito, mas, o choro e a gritaria foi geral entre àquelas mulheres. Meu pai, o bisavô de vocês havia morrido no conflito, não pudemos nos despedir dele, só soubemos que a carcaça dele estava apodrecendo em algum lugar da Polônia. Foi com essas palavras horríveis que o tenente deu a notícia. Nosso chão caiu, minha mãe não sabia o que fazer como ela iria criar cinco crianças sozinha?
Marina em lágrimas: Eu não queria que você perdesse seu papai.
- Não chore filha, vovó já superou, demorei é bem verdade, mas superei. Minha mãe foi guerreira, acabou casando com um cara que não gostava para proteger os filhos. Pelo menos acho que ela não gostava, aquele homem era muito amável sempre cuidou bem de mim e de meus irmãos e claro da minha mãe também, creio que ela foi muito grata a ele.
- Tá vó, mas é a medalha. Um soldado não deve ser enterrado sem as suas medalhas, é o mínimo que ele merece depois de matar tantos inimigos. 
- É quem são os nossos inimigos? Num dia um polonês e um alemão jogam bola e tomam um shop junto, no outro viram inimigos somente por que um calhorda quis assim? Não, políticos vendem essa ideia estapafúrdia, muitos acreditam e acabam entrando nesse jogo. Crianças, guerra é uma coisa terrível, nunca mais vi meu pai por causa dela. Ele era um homem tão bom, não matava nem mosca, amava todas as criaturas de Deus, eu creio que meu pai morreu por se negar a matar. Depois de tudo isso, uns dois anos depois minha mãe recebeu um envelope, nele havia essa medalha e uma carta do governo.  Nela estava escrito:

Sabemos como é complicado não ter por perto quem amamos, mas, não podemos dizer que lamentamos a morte, afinal ele não lamentaria, pois, prestou um excelente serviço a pátria. Preservou o orgulho que temos de nossos símbolos, esperamos que o luto tenha passado, pois um soldado não morre, nós ficaremos eternamente gratos pela valentia e ousadia. A nação deve muito a ele, e como forma de gratidão e reconhecimento  mandamos aos descentes essa grande homenagem. (no caso a medalha) Condolências a família do C546. 

- C546?
- Sempre acreditávamos que era um número de identificação, não sabemos ao certo. Só o que sabemos é que essa medalhinha em nada substituiu meu pai, preferíamos ter ele ao nosso lado, do que um objeto de cobre na parede. Penso no meu pai quase todos os dias, é uma pena que não tenho nenhuma foto dele, sua imagem só existe em minha lembrança. 
- Vó, quando eu for grande eu nunca vou para guerra, não quero ver a senhora chorando pelo meu corpo.    
- Alberto, espero que não tenha mais guerra, espero que vocês não passem pelo o que eu passei. Toda criança merece crescer com seus pais ao lado. Vocês tem sorte, agradeçam sempre, seus pais sempre estão por perto, obedeçam eles, pois não sabem como é triste viver sem um deles. Agora, chega de lembranças ruins: essa medalha volta para parede, vocês vão brincar no quintal e eu vou tricotar uma meia para cada um de vocês: Alberto azul, Marina Rosa e Lucas verde. 



Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência. 

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